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Segunda-feira, 1º de abril de 2019

arte em tempos de trevas

“Será que apenas os hermetismos pascoais

Os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais

Nos salvam, nos salvarão dessas trevas

E nada mais?”

-Podres Poderes de Caetano Veloso

Atual e pertinente. Não parece que Caetano falava em outro contexto. A canção lançada em 1984, "Podres poderes", traz em si um tanto de esperança com relação à salvação daquelas trevas. Ao mesmo tempo, Veloso mostra sua inquietação com a inaptidão das pessoas em pensar a política a partir da manifestação artística cultural. Talvez, justamente por fazer isso tão bem, sua obra incomodava.

Hoje completam-se 55 anos que a ditadura militar se instaurou no Brasil. Dias atrás, o atual presidente sugeriu a comemoração da data. Tais trevas de Caetano nunca estiveram tão próximas, dado que o atual governo exalta o militarismo e homenageia torturadores. E a pergunta continua: será a arte capaz de levar conscientização política para as massas? Antes disso: arte e política podem se misturar?

Há quem diga que a arte não tem funções pedagógicas ou morais. Entretanto, a arte é uma atividade essencialmente humana. A política também. Por que não conceber a política a partir de análises estéticas? O período da ditadura militar no Brasil tem provas incontestáveis de que essa aliança é legítima. Em diferentes linguagens, as manifestações de libertação das amarras ideológicas marcaram a produção artística cultural brasileira entre os anos de 1964 e 1985. (Veja alguns ícones na linha do tempo no fim da página)

Em meio a repressão e censura, a música, o cinema e o teatro são os grandes destaques da cultura no Brasil daquela época. Na música, o Movimento Tropicalista (ou Tropicália) reuniu diversos artistas entre compositores, instrumentistas e cantores. Para além das letras que questionavam o regime militar, a mistura de elementos da cultura popular com influências da contracultura hippie que estourava nos Estados Unidos, e a união de instrumentos que até então nunca tinham se encontrado, por exemplo guitarra elétrica com berimbau, eram uma forma de contestar o comportamento e a moral que vigoravam naquele período.

Capa do disco Tropicália ou Panis et Circensis
Glauber Rocha trabalhando em um de seus filmes

Nas telas, o Cinema Novo foi um movimento que se formou em resposta à instabilidade racial e classista no Brasil. Os filmes produzidos com base no Cinema Novo tinham também o objetivo de se oporem ao cinema até então produzido no Brasil, que consistia principalmente em musicais, comédias e épicos ao estilo hollywoodiano. O que mais importava nesse período era refletir, colocando nas telas o contexto de um Brasil mais próximo do cotidiano social, utilizando de cenários simples como as favelas, os campos e praças.

Nos palcos, os teatros Opinião (de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha), Arena (de José Celso Martinez Correa) e do Oprimido (de Augusto Boal) se destacam nas produções de peças com críticas à ditadura. Sob a influência de autores como Jean Paul Sartre e Bertold Brecht, escreveram e encenaram com muito sucesso, durante vários anos, espetáculos e revelações de ator. A implementação do Ato Institucional 5 (AI-5) representou o maior ataque à popularização do teatro no Brasil. Nesse período, poucos grupos ousaram propostas politizadas. A maioria das produções teatrais não passava de entretenimento meramente comercial.

Maria Bethania no Show Opinião

Após os anos de chumbo, a democracia se restabelece e a censura deixa de ser uma preocupação. Os artistas não perderam o caráter político e a produção no campo da arte engajada continuou. Entretanto, a visibilidade ou receptividade por parte do público parece ter reduzido. Talvez o fato de não haver mais um regime violento, abertamente arbitrário e repressivo, fez baixar a guarda do brasileiro.

Nos últimos anos, uma crise mundial, com reflexos no Brasil, vem polarizando a população e tornando a dimensão da política cada vez mais discutida. Pode ser, agora, uma ascensão de novas inquietações. A conjuntura atual coloca em xeque, a cada minuto, qualquer análise que possa ser feita. Como dizia Chico Buarque, “o que será que todos os avisos não vão evitar?”. O fato é que a 

arte engajada parece, cada vez mais, estar retomando os espaços, inclusive os mais comerciais e mainstreams. A diferença é que hoje ainda não se atribui aos novos produtos da arte engajada como pertencentes a um ou outro movimento.

A questão ainda não foi respondida: “Arte e política podem se misturar?”. Não é pretensão deste artigo respondê-la. Até porque uma questão como essa exige pensar o contexto, não só da ditadura, mas também antes dela, depois, e o atual. E atualmente tem sido cada vez mais difícil olhar para realidade, com olhar crítico ou não. Muitas coisas mudaram e mudam todos os dias. Mas talvez hoje, um hino da Tropicália seria diferente:

Eu quis cantar uma canção iluminada de sol

Soltei os panos sobre os mastros no ar e

Soltei os tigres e os leões nos quintais

Mas as pessoas na sala de jantar

São ocupadas em disseminar fake news.

Obrigada!

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© 2019 por Estela Loth.

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